quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Livro para beber!

Outra dica de livro. Um pouco diferente do que tenho indicado por aqui, como se pode deduzir pelo título do post.
Trata-se de "Vinho", de Jean-François Gautier. É da boa série Encyclopaedia, da L&PM. Boa porque tem bons títulos, e a preços bem acessíveis.

Quem gosta de ler, gosta de cultura geral e também de vinhos, não pode perder. O livro traça um panorama muito interessante do vinho ao longo da história, de sua presença em milhares de anos, nas mais variadas sociedades possíveis e em meio aos mais diferentes rituais - religiosos ou não. Aliás, é surpreendente ver o quanto o vinho esteve SEMPRE ligado à religião. De sua relação com a religião grega de Dionísio e com o Baco romano, além de sua presença nos rituais cristãos, possivelmente todos sabiam. Mas até em religiões/ comunidades nórdicas ou orientais o vinho foi inserido como parte ritualística importante. O livro traça um painel de tudo isso de uma maneira muito concisa e clara, acessível a todos, ao contrário do que acontece com alguns outros do gênero, que muitas vezes possuem uma linguagem excessivamente técnica e enfadonha.
Há ainda na obra uma interessante versão da Marselhesa (atual hino francês, da época da Revolução de 1789-1799): é a "Marselhesa do Bebum", cantada por revolucionários sans-culottes:
"Avante, filhos de La Courtille [antigo bairro francês que abrigava salões e espaços onde ocorriam os mais variados tipos de festas, casamentos,...]
o dia de beber chegou
é por nós que a morcilha grelha
é para nós que foi preparada
sentimos da cozinha
assar perus e pernis
de fato seríamos bem tolos
se lhes fizéssemos cara feia
À mesa, cidadãos, esvaziem todas as garrafas
bebei, bebei, que um vinho bem puro mata a sede de vossos pulmões"
(para conhecer e comparar com a letra original do Hino francês, clique aqui)

Enfim, o livro é barato, sobra até para comprar uma garrafa da bebida de Baco para degustar com a leitura!

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Para não esquecer

A "festa da democracia" sempre proporciona muito pano para a manga. Como não há tempo para tratar de tudo (e o que há para ser dito renderia novos blogs, e não simples posts) lembrarei de um caso. Nada que se compare ao do Tiririca, mas também patético. Trata-se do Sérgio Moraes, deputado federal pelo PTB. Aquele que no ano passado afirmou "se lixar" para a opinião pública. Aquele que fez, nos microfones do CQC, comentários bastante preconceituosos e homofóbicos. Eis que vem, com a humildade de uma Madre Teresa de Calcutá, pedir votos no horário político. Vem pedir o apoio do público eleitor, que ele mesmo enxovalhou.
Por favor, amigos eleitores, coerência na urna, ela não é privada.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

As mortes

Acho que encerrei os assuntos hospitalares já, o post de agora, apesar do nome, refere-se à literatura.
A dica de hoje é A morte e a morte de Quincas Berro D'Água, de Jorge Amado.

Li no hospital (olha ele aqui de novo), já um tanto intrigado de perceber que, em mais de 3 décadas de vida, embora conhecendo várias obras do escritor baiano, nunca havia lido nenhuma. Leitura bem apropriada ao local e à situação em que me encontrava: leve e divertida. Trata-se de uma novela, que narra a morte de Joaquim Soares da Cunha, respeitável funcionário da Mesa de Rendas Estadual, e de Quincas Berro D'água, 'rei dos vaabundos', 'senador da gafieira' e 'patriarca da zona dobaixo meretrício'. Na verdade, trata-se da mesma pessoa, que no entanto teve vidas tão diferentes. O correto marido e pai de família que, aos cinquenta anos, largou a casa e a família para viver na companhia dos vagabundos, boêmios, bêbados e prostitutas, é o personagem que dá vida (ops, cuja(s) morte(s)) à esta divertida história, com seus companheiros Mestre Manuel, Quitéria do Olho Arregalado, Negro Pastinha, Cabo Martim e Pé-de-Vento. São estes que, no velório, já bêbados, carregam o morto (que sorria) nos ombros, dão-lhe cachaça e levam-no aos lugares nos quais sempre fizeram farra. Isto até a derradeira morte de Quincas, ao cair da saveiro no mar. História que se presta a filmes (há já alguns bem parecidos) e ao imaginário popular.

Coloquei a capa da edição que li, com posfácio de Affonso Romano de Sant'Anna, que conta a história real, ocorrida na Bahia, que deu origem à do Quincas. Vale também a pena ler!

sábado, 18 de setembro de 2010

Reflexões hospitalares!

Coloquei no post anterior que minha concepção de tempo mudou. Na verdade as internações serviram para me mostrar algumas coisas:
- não me acho. Tenho pavor (e mantenho distância) de gente que se acha o centro do mundo. Ainda assim, aprendi que não sou mais do que um grão de areia (nunca pensei ser mais do que isso mesmo) em meio a esse mundo caótico. Aprendi que o meu tempo é só o MEU tempo. Por mais que tenha pressa, a pressa será só minha. As outras pessoas, o mundo, tem seu próprio tempo. Por mais que tenha dor e aperte a campainha (luz) do quarto do hospital, o auxílio não virá na hora que eu quiser/ precisar. Se for troca de turno ou hora de os atendentes passarem nos quartos para medir os sinais vitais dos pacientes todos, eu que aguarde. E a dor também.
- a vida é feita de instantes, e tudo é relativo. Ainda este ano fiz meu primeiro check-up (35 anos), com todos exames possíveis, e deu TUDO absolutamente bem, tive minha saúde elogiada pelo médico. Nunca, nestas três décadas e meia, tive qualquer problema de saúde maior do que alguma gripe ou as doenças infantis. Minha presença em hospitais se resumia a visitar parentes. E eis que...
- pós-hospital, e ainda referente ao tempo: tenho aos poucos aceitado que o dia só tem (e sempre terá) 24 horas. Este sim é o aprendizado mais difícil, para alguém tão atarefado. Mas necessário. É preciso aprender a conviver com isso. Das 24 horas, tirando-se umas 5 ou 6 para o sono, 2 para as refeições todas, 1 para os banhos, e uns 40 minutos para os deslocamentos, o que sobra é trabalho. Fora ou em casa. Se der tempo de fazer tudo o que preciso, beleza. Se não der, que fique para outro dia. Não posso deixar de fazer qualquer das coisas citadas acima. Ah, e vez ou outra vou ter de tirar ou achar um tempinho para mim, ou o corpo vai novamente me forçar a isso...
- há coisas (e não são poucas) que, embora não entendamos - ou não concordemos - , precisamos aceitar. Se o médico prescrever que é necessário ter de passar por 50 horas de jejum, paciência. Se, dias depois, tiver de passar por mais 62 horas de jejum total (nem água), paciência também. Se sair do hospital com 8 quilos a menos e tiver de enfrentar os olhares entre assustados e apiedados dos conhecidos, mais paciência e coragem. Com o tempo as pessoas acostumam (ou volto a engordar).
- na verdade um dos grandes aprendizados foi exatamente este: o exercício da paciência, coisa que sempre me faltou. E o conhecimento do corpo, dos limites e das mais variadas dores (e da capacidade de suportá-las).


Enfim, há tempos não se via um post tão melancólico e filosófico como este.
Aspectos positivos desta experiência: pude ler bastante nos momentos sem dor (coisa que já não conseguia fazer em casa, pelo excesso de trabalho) e, principalmente, me senti importante e querido com todas as manifestações de carinho, visitas, ligações e mensagens que recebi. Faz muito bem esse sentimento de vez em quando...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Notícia

Já estou bem. Muita coisa aconteceu depois desta postagem aí debaixo: infecção, nova (e prolongada) hospitalização, todos tipos de dores possíveis; sem dúvida, o momento mais difícil da minha vida.
Tudo bem agora, MUITA² coisa para escrever, mas pouco tempo.
Mas devagar tudo vai se ajeitando; até minha concepção de tempo mudou (em seguida explico melhor)...

domingo, 29 de agosto de 2010

Obrigado!

Não posso, por enquanto, colocar aqui mais nada senão meus sinceros agradecimentos a todos que me enviaram mensagens de melhoras e oferecimento de ajuda neste momento sequelado por que estou passando.
Para quem não sabe, fui acometido, na madrugada de 3ª para 4ª passada de violentas dores abdominais que me levaram ao HPS. No dia seguinte, após muita medicação na veia, as dores voltaram, mas mais para o lado. Voltei ao HPS, onde foi diagnosticada apendicite, mas não foi possível operar no próprio HPS (todos tem visto a situação da saúde pública, não?). Fui então ao Ernesto Dorneles (estava com a emergência lotada, e só me deixaram entrar por causa do diagnóstico e dos exames que levei), onde a tal cirurgia foi feita.
Tive alta ontem, sábado, mas está tudo muito dolorido...

Enfim, sinceramente, MUITO OBRIGADO mesmo!!!!!!
Em breve conseguirei postar coisas mais interessantes por aqui!

domingo, 22 de agosto de 2010

Rio III - Final

Tá, último post do Rio. Ainda há muitos lugares interessantes para comentar, mas o mundo gira, e é maior do que a Cidade Maravilhosa!

Clica nas fotos para vê-las como merecem!

Para encher os olhos (e o estômago, desde que se esteja com dinheiro), é imperdível uma visita à Confeitaria Colombo, no centro. Retrata bem a opulência da cidade na virada do século XIX para o XX (foi construída em 1894!). Tem doces (salgados também, mas sabe como é formiga gorda...) inacreditáveis e inexplicáveis. Tem também espelhos de cristal belga e uma decoração dessas:
Falando em termos históricos, é intessante também visitar a igreja do Mosteiro de São Bento, erguida entre 1663 e 1691! Constitui-se em um dos principais exemplos do barroco no Brasil. Diz que na missa das manhãs de domingo há até canto gregoriano entoado pelos monges do local. (a foto está ruim pela proibição do uso de flash no seu interior).

Em termos artísticos, há a Escadaria Selaron, no Bairro Santa Teresa (ao lado da Lapa). Selaron, se bem me lembro, é um artista chileno que vive no Rio há muitos anos, e começou a decorar o local com os mais diferentes azulejos, até que tal ofício foi se tornando conhecido e ele passou a receber os mais diferentes azulejos, dos mais variados países do mundo. Assim, vai sempre aumentando a coleção/ exposição.


Só foi uma pena mesmo não ter podido ao Museu Imperial, em Petrópolis, pois o dinheiro chegou ao fim. Mas fica aí um bom pretexto para voltar!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Rio II

Tá, já saí daqui sabendo que iria ao básico do Rio (sugar breath, corcovado, ...). Afora isso, o primeiro e imediato lugar que de cara botei na cabeça que IRIA, custasse o que custasse, era o Palácio do Catete, sede do Governo Federal até a inauguração de Brasília, 1960. O objetivo era um só: entrar, conhecer, ver e viajar no local que abrigou os últimos suspiros de Vargas; ver seu quarto, cama, pijama, revólver, projétil, sala de reuniões, etc. Já conhecia tudo isso de fotos, mas precisava ver ao vivo. Explico: desde a primeira vez que ouvi falar do suicídio de Vargas que tal assunto me inquietou. E foi lá pelo final da infância. E me inquietou mais ainda o fato de o suicídio nunca me haver sido satisfatoriamente explicado. Nem pelos adultos em geral aos quais perguntei, na época, nem por professores. Tal pergunta, que teimava em ficar sem resposta para mim acabou por mexer de uma tal forma comigo, que, fissurado em História como sempre fui, comecei a ler por conta tudo o que encontrava a respeito do presidente. Suicídio em geral sempre é um tema que rende muitas análises, psicológicas, etc. O suicídio de um presidente, em pleno exercício do poder, então, me marcou muito. (a propósito, esta questão da pergunta não respondida ter me instigado tanto é para mim até hoje motivo de conflito profissional. Sempre que algum aluno me faz uma pergunta de História eu, feliz pelo interesse do aluno, desato a falar um monte, e depois me culpo por não ter deixado espaço para a inquietação...).

Enfim, fui crescendo, estudando e lendo muito a respeito do assunto. Veio a graduação e o TCC sobre Vargas; veio a pós-graduação e a monografia sobre Vargas. Veio o ano de 2004, cinquentenário da morte do presidente, e uma avalanche de materiais sobre ele, que fui lendo e me fascinando ainda mais. Virou um objetivo para mim, visitar o Palácio do Catete, o salão que abrigou a última reunião de Vargas com seus ministros, assessores, conselheiros, poucas horas antes do desfecho que marcou a história do país (e a minha, que nem nascido era!), as escadarias ornadas, a sala de jogos e o quarto, ainda com a mobília que presenciou o ato do presidente. O pijama com o furo na altura do coração, o revólver com cabo de madrepérola, a bala retirada do corpo...
Enfim, não conseguirei explicar o que se passou na minha mente ao entrar nesses lugares. Por tudo que li, pela riqueza de detalhes dos acontecimentos, que acho que domino, me passaram todas as imagens na cabeça, como se as tivesse vivido e apenas relembrasse. Os demais presentes provavelmente não entenderam meu êxtase no local, mas viram, pelos pelos (o que faz a nova ortografia, ao eliminar o acento da palavra...) dos meus braços, os arrepios que percorriam meu corpo ao adentrar alguns recintos do suntuoso palácio...
Experiência única, indescritível e sem preço.
Aconselho muito a visita, mas aconselho ler, estudar e conhecer um pouco das histórias que se passaram lá dentro.

(as fotos estão escuras porque só é permitido no interior do Palácio o uso de câmeras sem flash)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Rio I


Explico o que quis dizer com "(ah, essa mesma hora, na semana passada - em seguida explico por aqui!!!)" naquela postagem.
É que em julho fiz uma excelente viagem, a um lugar que ainda não conhecia, o Rio de Janeiro. Grande presente que ganhei de minha mãe.
Lugar que, confesso, não estava nos meus planos imediatos, com minhas escassas economias. Mas que vale MUITO a pena conhecer, recomendo. Tanto que pretendo voltar mais vezes, com meu dinheiro mesmo.
Além de conhecer lugares absurdamente bonitos, e outros com valor histórico inestimável para mim (em seguida postarei mais coisas aqui a respeito), aquela frase "ah, essa mesma hora, na semana passada" referia-se a um outro contexto. Consegui ficar por 5 (aham, cinco!) dias sem tocar nem pensar em nada de serviço. Recorde absoluto! Mais: pude, em pleno final de julho (inverno brabo no hemisfério sul), vestir uma bermuda, umas chinelas e tomar vários chopes em quisques na beira da praia de Copacabana, à noite... E ainda assistindo partidas de futebol de areia dos 'nativos' (aliás, ê povo que sabe viver, aquele!!!)!!! Tem coisas que não tem preço mesmo.


segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Miscelânea

Mais uma dica de blog. Fazer o que, se faço boas descobertas? Guardar para mim que não vou, não sou egoísta!
O que indico hoje é o tutti frutti (http://miscelaneadaisa.blogspot.com/), um blog muito bonito esteticamente e com ótimos posts, que vão de introspecções com pitadas filosóficas até a arte.
Enfim, comparece lá e confere.
E já adiciona aos teus favoritos, para não esquecer de acessar, a moça tem muito a dizer!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Imagens que valem por mil palavras...

Falta de tempo para escrever (ah, essa mesma hora, na semana passada - em seguida explico por aqui!!!)...Aliás, falta tempo para tudo; estou que nem o Capitão Gancho: não posso nem coçar o saco.
Eis que reedito um clichê aqui, das palavras que valem por mil imagens (ou o contrário!).
Vejamos então a semana em imagens!


1. Putz, será que só eu sou ocupado???? Explico - a cena abaixo é de um "dominó humano", formado por 769 pessoas na Alemanha, entrando para o livro dos recordes...


2. Neve na Alemanha e corrida de trenós:

3. Neve no Rio Grande do Sul (é, a neve ainda tem que virar uma coisa mais corriqueira por aqui, para ter mais graça...)


4. Putz, isso explica tudo!!!!!





5. Ê LÁ EM CASA...

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(pra quem não viu - ou achou que viria outra imagem -, isso é a apresentação das novas cédulas de real)

sábado, 31 de julho de 2010

A parede no escuro

Fazia tempo que não indicava um livro por aqui, pois andei lendo coisas muito técnicas, específicas da minha área, como se pode ver pela lista de livros 2010, à direita.

Volto, porém, em grande estilo. Não por mim, mas pelo que vou indicar, claro!

A dica de hoje é A parede no escuro, de Altair Martins. O livro conta a história do atropelamento do padeiro Adorno pelo professor Emanuel, acidente (crime) sem testemunhas, já que ocorreu em uma madrugada de intenso temporal e sob um poste de luz cuja lâmpada estava queimada. A partir daí se desenrola a história, e vão sendo inseridos os demais personagens.
Méritos para a(s) linguagem(ns) e principalmente para as figuras e recursos de linguagem utilizados pelo autor. Enquanto a maioria dos mortais comuns (mesmo os metidos a escritor), ao descrever a água fervendo em uma chaleira, por exemplo, escreveria "no fogão, a água fervia dentro da chaleira", ou coisa parecida, Altair descreve a cena como: "De dentro da chaleira a água encontra seus meios de escapar".

Agora, o peculiar e interessante mesmo da obra é a existência não de um, mas vários narradores. Cada um vai colocando suas falas, pensamentos e pontos de vista, não havendo apresentação ou transição de um personagem-narrador a outro, a não ser uma linha em branco. Sendo a construção dos personagens (Emanuel com seu TOC, por exemplo) tão perfeita que sabemos direitinho quem está narrando a história a cada momento (quem não leu o livro deve ter achado estranho este "sendo" que coloquei, mas foi proposital, para incomodar e estimular o leitor do blog a ler o livro!).